A História dos Fliperamas no Brasil

Inicialmente associado às máquina de Pinball, o termo “Fliperama” (que vem de “Flipper”, a alavanca que rebatia as bolinhas no Pinball) no Brasil acabou servindo para referenciar os jogos eletrônicos, que estavam surgindo com força e tomando o lugar dos Pinballs em todo o mundo. Hoje é difícil de imaginar mas as pessoas se davam ao trabalho de sair de casa e ir para um lugar específico apenas pela chance de poder conseguir jogar um game, muitas vezes tendo que esperar na fila para jogar nas máquinas mais badaladas. Ah, e existiam lugares destinados somente a isso, as “Casas de Fliperama”. Ouvindo assim, alguém pode até imaginar algo arrumadinho, como as Lan Houses que vieram bem depois. Mas não se engane: O ambiente nos “Flippers” não era para os fracos. Estamos falando desde botecos pés sujos que tinham uma máquina perdida até lojas grandes, na rua, destinadas a isso. Quando era o caso dessas lojas, além dos jogos eletrônicos normalmente tinha também umas mesas de sinuca, totó (ou “pebolim”) e, invariavelmente, umas escadas suspeitas ou salas fechadas onde as crianças não podiam entrar…. Ah, e o ambiente era totalmente democrático. Desde o riquinho do colégio até o “pivete” da rua, todos se encontravam nos Flippers. Então você tinha o pinguço bebendo cachaça, pessoas tomando cerveja e fumando, o pivete que poderia te assaltar na rua (mas nunca nos Flippers, era meio que um código de honra), um cassino improvisado rolando nas salinhas fechadas e a criançada no meio disso tudo. Ahhh, os anos 80…

O clima do flipper de boteco.

E esqueça as cadeiras confortáveis e o ar condicionado gelando das Lan Houses. Nos Flippers era todo mundo em pé mesmo, num puta calor e aquela “nhaca” de suvaco no ar da criançada suada que não via um banho há algum tempo. E, mesmo com tudo isso, ficavam lotados e eram uma das coisas mais legais para quem curtia games. Afinal, é preciso entender o contexto histórico. Estamos falando de uma época onde Internet e Smartphone eram coisas de filmes de ficção científica e os videogames estavam começando a engatinhar no Brasil. Mesmo na época do Nintendinho e do Master System, que foram bem populares por aqui,  os jogos dos Fliperamas sempre estavam gerações à frente em termos de gráficos. Então, pra jogar os jogos mais legais e modernos, só indo no Flipper mesmo. Outro ponto é que, como não existia internet, o multiplayer só era possível nos Flippers. Você até podia jogar “de dois” em alguns jogos nos consoles em casa, mas nos Flippers já existiam jogos onde 4 pessoas poderiam jogar ao mesmo tempo! E, claro, tinha toda a questão do ranking.  A regra era simples: quem fosse o melhor, estaria lá listado nos top 10 “para a posteridade”.  Posteridade com grandes aspas mesmo, porque o dono do Flipper volta e meia desligava a máquina que, dependendo do jogo, poderia simplesmente zerar o ranking de um dia para o outro. Imagina ralar pra ser o primeirão e, no dia seguinte, a máquina ter zerado? Pois é.. acontecia com mais frequência do que você está imaginando.

Com a popularização dos games, passamos a ter áreas em shoppings dedicadas aos Fliperamas, que viraram “Arcades” e ficaram mais chiques. E os preços, obviamente, acompanharam. Quando os Fliperamas ganharam os shoppings, ele dividiam espaço com brinquedos tradicionais de parques como carrossel, barco Viking e outros. Claro, os “podrões” continuaram existindo por um tempo mas mesmo esses foram se extinguindo, auxiliados pela “febre” entre os pinguços nas maquinas no estilo caça-níquel e vídeo poker.

A HotZone ainda resiste.

O golpe fatal nos Flippers veio mesmo com a evolução dos videogames caseiros. Os jogos dos consoles costumavam ser piores do que os jogos dos Flippers mas, a partir do Super Nintendo, isso foi mudando. Com o SNES já era possível jogar Street Fighter 2 em casa com praticamente a mesma qualidade do Flipper. E nas gerações de console seguintes já não existia mais muita diferença. Isso foi “esvaziando” o conceito dos Fliperamas e os próprios fabricantes pararam de investir nesse mercado. Foi aí que percebemos uma mudança: As máquinas de jogos agora focavam em oferecer o que não era possível nos consoles caseiros, como cadeiras que se movimentavam e recriavam perfeitamente a experiência de pilotar um carro de corrida ou um caça, com direito a volantes, pedais, manches e tudo o mais. Outros tinham grandes armas, que você usava para atirar na tela, ou um palco onde era possível dançar. O ápice desse conceito veio com a Gameworks, uma empresa americana formada pela Sega, Universal Studios e Dreamworks, que apostava na superprodução, com ambientes grandiosos, bonitos, modernos, que mais lembravam uma boite. Era o extremo oposto do fliperama de boteco. A Gameworks chegou a abrir uma filial no Brasil no shopping New York City Center, no Rio de Janeiro. A casa vivia lotada e era realmente muito legal “brincar” nos simuladores e games com experiências diferentes do que a gente tinha em casa. Mas mesmo a Gameworks não resistiu à comodidade (e crescimento) dos jogos online e acabou fechando as portas em praticamente todo o mundo. No Brasil ela virou a Hotzone, que hoje domina o cenário de “Arcades” em Shoppings e tenta recriar um pouco a “magia” da Gameworks. Mesmo hoje, burro velho, volta e meia dou uma passada num Hot Zone e jogo uma partida ou outra, só pra relembrar um pouco os velhos tempos. Mesmo sabendo que tenho jogos melhores em casa. É a saudade de um tempo que só mesmo quem viveu essa época pode entender.

Publicado por

Rodrigo Montaleão

Geek desde sempre, com 4 anos ganhava seu primeiro videogame: um Atari. Daí pra frente a paixão por tecnologia, gadgets e games só aumentou. Ávido consumidor de cultura pop, assiste diariamente filmes, séries de TV, Youtube e o que mais encontrar pela frente. Pai coruja, se desdobra para dividir o tempo entre a família e suas "nerdices".